sábado, 17 de novembro de 2012

Alegoria dos Porquês

(Inspirada em Realejo) Por Maíra Viana, (Curta no Face)


O tempo batia asas. No mundo dela era sempre noite. Mesmo de manhã, o céu permanecia no mais completo breu. Cansada daquela mesmice, passou a questionar os porquês da sua existência e da origem do mundo no qual vivia. Procurava a lógica dos fatos e se perdia em suas próprias explicações. Uma ideia fixa martelava em sua cabeça: Precisava sair dali e descobrir se tudo era sempre daquele jeito ou se lá longe, bem distante, haveria uma outra realidade. E pôs-se a caminhar. Todo chão era pouco perto do desejo que a movia. E então chegou numa das pontas do mundo: tudo continuava a ser sempre daquele jeito  e lá longe, bem distante, não havia nenhuma outra realidade. Deu a volta e seguiu obstinada. Quanto mais andava, mais sentia  o tamanho do mundo. De seus pés brotavam calos. O corpo padecia, descascava, transmutava. E os porquês se tornavam cada vez mais audíveis reverberando nos quartos de seu coração. E no que cruzou o sul, o norte, o leste e o oeste do mundo: tudo continuava a ser sempre daquele jeito e lá longe, bem distante, não havia nenhuma outra realidade. Quanto mais andava mais sentia o tamanhinho do mundo. Não havia mais pra onde ir, seu corpo também não suportava mais acompanhar o ritmo frenético dos porquês de sua cabeça. A massa corpórea dela padecia, pipocava, inchava. Achou que fosse morrer naquele instante e quando olhou de volta para si foi que percebeu a transformação. O corpo dela havia crescido tanto que não cabia em seu mundo. Com toda aquela pressão, o céu foi rasgando vagarosamente até revelar a luz. Em seu novo mundo, era sempre dia. Mesmo de noite, as estrelas garantiam uma luminosidade  que ela jamais poderia prever enquanto lagarta andante dentro da caixa de sapato. Agora era diferenteEla batia asas.





Sara Melo

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Nossas pequenas revoluções.

Filme: Maria Montessori, uma vida pelas crianças

Maria Montessori nasceu em 1870 na Itália sendo a primeira mulher a formar-se em medicina pela Universidade de Roma. Seu sobrenome é mundialmente conhecido por estar ligado ao seu método de aprendizagem, desenvolvido a partir de experiências de trabalho com crianças na clínica da Universidade. Por mais que uma descrição de sua vida se empenhe em ser completa e detalhada, não conseguirá alcançar todas as questões com que essa personalidade se envolveu. Sua trajetória de vida é uma inspiração pra todos que se interessam pelos estudos de gênero, desenvolvimento, educação, violência e prevenção; é fonte de inspiração pra quem se interessa pela vida.
As implicações de se nascer do sexo feminino, há mais de um século, em uma sociedade extremamente patriarcal, que naturaliza as atribuições e características esperadas da clássica dicotomia masculino/feminino, são questões em evidencia durante toda a vida dessa mulher. As práticas sociais atribuídas de forma arbitrária às mulheres são fortemente representadas quando Maria Montessori escolhe estudar medicina em vez de pedagogia, contrariando seus pais e estereótipos que surpreendentemente ainda perduram (exatas/homens, humanas/mulheres). Fica em evidência quando a aluna a pedido do diretor precisa ser a última a entrar na sala; quando precisa abrir mão do convívio com o filho por não poder ser mãe solteira; quando seu desempenho e engajamento profissional se torna um empecilho para ficar ao lado de alguém, afinal, mulheres devem amar e não competir com seus maridos de modo a tirar-lhes seu mérito e honra. Os efeitos dessa violência nas relações de gênero sobre a saúde física e mental dos indivíduos ficam muito claros quando Maria Montessori diz que “nessa vida, os caprichos de um homem valem mais do que a vida de uma mulher”, ao fazer uma incisão no cadáver de uma jovem que havia morrido de sífilis por falta de tratamento para que a vivência de seu marido em casas noturnas não viesse à tona na sociedade.
De forma geral, sua vida foi um misto de várias revoluções dentro dessas construções sociais. Manter um método de ensino onde garotos devem lavar sua própria louça e roupa contrariando uma advertência de Mussolini, faz-me pensar na mobilização de recursos pessoais que Maria Montessori precisou fazer para enfrentar os embates e resistências em relação às suas propostas de mudança. Um importante recurso que é muito bem retratado é o de sua família, que apesar de tradicional, sempre a apoiou e se orgulhou de suas conquistas.
Ao longo de sua graduação, é surpreendente a forma com que lida com a saúde já norteada por um modelo biopsicossocial. Maria Montessori ressalta a importância de se trabalhar com a prevenção e a promoção de saúde e não só com a doença e cuidados paliativos. O cuidado e sensibilidade ao lidar com o ser humano é evidenciado na fala: “queria tratá-la como um ser humano e defende-la das chacotas e olhares dos meus colegas” ao se referir a um corpo utilizado em uma atividade anatômica. Durante todo o filme, a importância atribuída ao cuidado com a vida e ao estabelecimento de uma relação de absoluta confiança entre profissional da saúde e paciente fica muito clara.
Todas as suas experiências pessoais, profissionais e acadêmicas parecem ter contribuído para a criação de um modelo de aprendizagem que a meu ver, surge como uma tentativa belíssima de trabalhar todas as questões que a incomodavam. Ao trabalhar em um projeto de pesquisa com crianças em uma clínica psiquiátrica e populações desprivilegiadas da sociedade, Maria Montessori adota a educação como um poderoso instrumento de transformação social, apesar de ter sido formada dentro de um modelo mecanicista que trabalha os problemas e mazelas humanas com a ideia de “cura”. Ao perceber a diferença existente no tratamento de pacientes que haviam sido atendidos e cuidados por suas famílias, estrutura um pilar essencial no seu método de ensino que é aproveitar essa fase do desenvolvimento infantil para envolver as crianças em um ambiente de estímulos adequados e essenciais para o seu crescimento: afeto, autonomia e empoderamento.
Seu método de ensino passa longe do assistencialismo, posto que, enxerga a educação como uma conquista inalienável do indivíduo. Sua proposta de atribuir ao professor a função primordial de despertar nas crianças o reconhecimento do seu valor e capacidades é um exemplo do empoderamento que a educação proporciona ao aprendiz.
É difícil pensar em uma reflexão que conclua o que este filme suscitou em mim. Mas a ideia que me acompanha em todas essas pequenas análises é a de que pequenas revoluções alimentam os processos de mudança. Fazendo um paralelo com a fase em que me encontro na formação, tenho pensado muito no fato de que se você terminar um curso universitário, qualquer que seja, sem a menor vontade de mudar um pedacinho do mundo, alguma coisa está errada. Há uma cena no filme, em que Maria Montessori questiona o estudo de desenvolvimentos psíquicos e danos neurológicos sem a pretensão de intervenção, dizendo que dessa forma, nunca estaremos preparados para a aplicação dos conhecimentos gerados pela Universidade que são carregados de muito potencial de contribuição para a sociedade. Essa angústia vivida pela personagem retrata muito o enfraquecimento do compromisso com as atividades de extensão dentro da Universidade, um tripé essencial, que fica encoberto pelas atividades de produção acadêmica e ensino.
Maria Montessori é mais um exemplo de que todas as nossas experiências pessoais, nossos interesses, nossas inconformidades, o que conhecemos, o que aprendemos, o que estudamos, tudo isso somado às nossas motivações, são os únicos instrumentos necessários para alcançar os objetivos que almejamos.

Lala

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Cara nova!

Aproveitando a nova face do blog, vamos falar de mudanças! (ou não)



Caraca, já estamos em Novembro!
Novembro, gente. Novembro!! Como o tempo voa!
Jajá chega Dezembro, o Natal, o Ano novo... O fim do mundo...
E sempre rolam aquelas coisinhas, "minha meta pra esse ano é..."
Daí a gente se compromete a economizar mais, estudar mais, trocar de emprego... (ou arrumar um, no meu caso)
Escolhemos aquelas cores pro Reveillon. Trazer paz, calma, dinheiro, tranquilidade..
Essas coisas que todo mundo conhece bem, pois mesmo que não o faça, sabe de pelo menos um milhão de pessoas que façam.

Mas porque eu to falando isso (?!)
Dentro das contextualizações arquitetadas na minha pequena mente brilhante, eu queria mesmo era falar sobre "máscaras".
Sobre como a gente, por escolha ou por obrigação, acaba por adotar certas características - que muitas vezes não são nossas - para nos adequar mais ao ambiente em que nos encontramos.
Claro que não pega nada bem, chegar em um seminário da faculdade e soltar um "puta que pariu", é questão de educação e respeito..
Mas, e quando essas extrapolações vão além do exigido pela educação, chegando a se tornar um preconceito, ou qualquer outra forma de não-aceitação?



A sociedade (não consegui fugir do clichê) é cheia de esteriótipos.
Como já tratado anteriormente pela nossa linda Tainha, é exigido cada vez mais que sejamos um bando de robôs, que se vestem igual, se comportam igual, gostam das mesmas coisas e buscam os mesmos objetivos.
E o que foge deste padrão, é errado, tá com defeito.



E se eu não quiser usar branco no meu Ano Novo? E se eu não quiser ficar rico? O que você faria, se eu te dissesse que prefiro viver trabalhando que nem uma jumenta, do que passar o dia inteiro com os pés pra cima?
- Coitada, não sabe o que diz. Vem cá, Saramelo... Acho que deveria pensar mais sobre o assunto.

Não estou falando que devemos fugir a todas as regras, até porque quebrar "regras" simplesmente por quebrar, não faz sentido algum.
(Por favor, não quero saber de ninguém largando os estudos só pq leu isso!) :D

Mas qual é o sentido de ter atitudes e buscar objetivos que não são nossos, que não nos fazem felizes?
Claro que sempre teremos limites, até mesmo porque estes nos orientam e situam dentro de nós mesmos e de onde vivemos. Só é preciso enxergar até onde são esses limites. Utilizá-los da melhor forma possível e de forma a nos afetar o mínimo necessário.

Já dizia meu amigo Renatinho, que "O mal do século é a solidão".
Esse bando de gente que tem tudo o que todo mundo "sonhou" e vive às custas de antidepressivos... Porque será?

Vamos tirar as nossas máscaras, queridos. Assumir o que somos, inclusive os nossos defeitos, e aprender a lidar com eles, ao invés de jogar naquela gavetinha desarrumada e continuar vivendo "pelas metáde".



Desculpem se ficar com um quê de auto-ajuda. Acho que sou dessas... :x Haha!

Beijinhos

Sara Melo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

E você, compactua?

Brasília sua linda, continue assim! Alimentando nossos olhos com seus ipês e horizonte infinito.



E nossos ouvidos com suas músicas Maravilhosas.


"Tudo numerado é legal
mas enche o saco" 




terça-feira, 2 de outubro de 2012

"Nesse nosso desbravar
Emanemo-nos amor
Até quando suceder
De silenciar
O que nos trouxe até aqui

Nada melhor virá!" 
      - O Teatro Mágico.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Como são engraçadas essas coisas da vida...
Fazem dias que eu tô pensando
"Poxa, faz tempo que ninguém publica nem visita o blog, vou lá tirar umas teias de aranha"
Chego aqui e encontro duas novas postagens, que traduzem exatamente o que eu andei pensando...
Faz tempo que eu não visito, só penso.
Pensar é muito bom, mas tudo em excesso faz mal.
Excessos trazem desequilíbrios. Se sobra aqui, falta alí.
A gente busca a calma, busca a calma na pressa.
Quer estudar logo, trabalhar logo, ganhar dinheiro logo, pra ficar tranquilo logo.
Deixa de gastar, pra ter mais dinheiro pra gastar.
Quero resolver logo, sossegar logo, me acalmar logo
Quero me livrar de tudo que me incomoda, quero paz.
Logo. Meu coração está com pressa.
Está com tanta pressa, que me impede de ver que Brasília está ficando verde de novo.

Me impede de ligar pra quem me faz falta.


Mas não com tanta pressa, ela ainda não está amarela de novo.




Nem tanta pressa, tenho créditos no celular.





Quero férias, quero matar saudades.







Hoje a lua está cheia.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O que a vida oferece - Martha Medeiros

"Conversando outro dia com um senhor saudosista, ele me contou que quando sua filha tinha uns 10 anos de idade, ele costumava pegá-la pela mão e propunha: Vamos dar uma volta na rua pra ver o que a vida oferece. 

Tanta gente aí esperando ansiosamente para ver o que a vida oferece, só que não sai de casa, e quando sai, não tem o olhar curioso nem o espírito aberto para receber o que ela traz.

Infelizmente, já não caminhamos pela rua, a não ser num ritmo acelerado, com trajeto definido e com o intuito de queimar calorias. Marchamos rumo a um melhor condicionamento físico, o que é um belo hábito, mas flanar, não flanamos mais. Não passeamos. As ruas estão esburacadas, há muitas ladeiras, o trânsito é barulhento e selvagem, compreende-se. Mesmo assim, a despeito de todos os inconvenientes, é preciso dar uma chance à vida, colocando-nos à disposição para que ela nos surpreenda. 

Ao sair sem pressa, paramos numa banca de revistas e descobrimos uma nova publicação. Dizemos bom dia para o jornaleiro e ele, gentil, nos troca uma nota de valor alto. Na calçada, encontramos um velho amigo. Ou um artista famoso. Ou alguém que sempre nos prejudicou e hoje está mais prejudicado do que nós, bem feito. 

Na rua, pegamos sol. Paramos para tomar um suco de maracujá com maçã. Flertamos. Um novo amor pode surgir de uma caminhada tranquila numa rua qualquer. E uma nova proposta de trabalho pode surgir de um esbarrão num ex-colega: estava mesmo pensando em te procurar, cara! Se continuasse apenas pensando, nada aconteceria. 

Na rua, o jeito de se vestir de uma moça inspira a gente a resgatar uma jaqueta que não usávamos mais. Bate de novo a vontade de ter um cachorro. Descobrimos que é hora de marcar um exame minucioso no joelho direito, por que ele incomoda tanto? 

Encontramos umas amigas num bistrô e paramos um instantinho para conversar, e então ficamos sabendo de uma exposição que não se pode perder. Passamos por uma livraria e damos mais uma namoradinha num livro que nos seduz. Ajudamos uma senhora que está saindo com várias sacolas de um supermercado, não custa dar uma mão. Aceitamos o folheto entregue por um garoto na esquina, anunciando uma cartomante que promete trazer seu amor de volta em 3 dias. 

Você joga o folheto no lixo, e não no meio-fio. Você compra flores para sua casa. Você observa a fachada antiga de um prédio e resolve voltar ali com uma máquina fotográfica. Você entra numa igreja, não fazia isso há anos. Reencontra um ex-namorado que passa de carro e lhe oferece uma carona. Você nem tinha percebido como havia caminhado e como estava longe de casa. Aceita a carona. Um novo amor não surgiu, mas seu antigo amor foi resgatado em menos de 3 dias, nem precisou de cartomante. 

Pode nada disso acontecer, óbvio. Mas sem dar uma chance à vida é que não acontece mesmo."

Martha Medeiros